• PERSISTE O CLIMA DE INCERTEZA

    AGENDA – ANO 8 - NÚMERO 85 - 2017 - Julho Antonio Fernando Guimarães Pinheiro - Advogado-sócio

    Após um breve período de relativa estabilidade e de previsões mais otimistas, o país vivencia um quadro de grande incerteza na área política, que se reflete diretamente nas áreas econômica e social, trazendo desalento e crescente preocupação para os brasileiros.

    Na esfera política, a denúncia apresentada contra o Presidente da República interrompeu a aparente estabilidade que até então se verificava, comprometendo profundamente a estrutura de apoio político necessário para a as reformas trabalhista e previdenciária, projetos estes que, se aprovados, certamente dariam grande impulso à recuperação econômica, abrindo possibilidades reais para a redução do desemprego.

    Os gastos com a Previdência Social devem ocupar 57% das despesas primárias este ano, consumindo recursos que poderiam ser aplicados em outras áreas prioritárias. O maior problema que a reforma previdenciária pretende resolver ao longo do tempo é que as receitas da área não acompanham o mesmo ritmo de avanço nas despesas. Caso a reforma não seja aprovada, a cada ano a situação se agravará ainda mais.

    Há cerca de três meses, os economistas faziam projeções otimistas prevendo para 2017 o crescimento de 1% do Produto Interno Bruto, para o que se estima hoje algo entre zero e 0,5%. O sentimento que agora prevalece é de que a esperada recuperação econômica somente possa ocorrer após a eleição presidencial de 2018.

    Apesar disso, os economistas avaliam que existe certo alento no cenário, em razão do baixo o risco de um novo agravamento da crise, com o recrudescimento da recessão. O que tem contribuído para evitar um eventual retrocesso é o avanço obtido por setores de certa forma mais descolados da crise, como a agricultura e a mineração. O bom desempenho que vem sendo obtido nas exportações dessas commodities tem contribuído para a queda da inflação, permitindo a progressiva redução da taxa básica de juros.

    Mas fato extremamente grave é que, segundo aponta o indicador Serasa Experian, a inadimplência no país atingiu a 61 milhões de consumidores. Esse é o maior volume já registrado na série histórica da pesquisa, que começou em 2012, sendo que em maio de 2016 esse número era de 59,5 milhões de consumidores com dívidas em atraso.

    Ao mesmo tempo, o desemprego continua em nível alarmante, sendo hoje da ordem de 13,8 milhões de desempregados, o que contribui para o desaquecimento da economia e o aumento da criminalidade. Outra face perversa dessa situação fica evidente quando chega a público que mais de 170.000 pessoas cancelaram seus planos de saúde e dezenas de milhares não conseguem manter em dia o pagamento das mensalidades escolares.

    Nas previsões mais otimistas, não se espera que o PIB de 2018 supere os 2,5% que vinham sendo antes considerados e, quanto à ocorrência de superávit nas contas públicas, somente se avalia essa possibilidade para 2020.

    Isso significa que não existe clima para novos investimentos no país, ou para a retomada do consumo, tornando reduzidas as possibilidades de reversão, no médio prazo, da elevadíssima taxa de desemprego vigente.

    Em resumo, o clima de incerteza persiste, sem possibilidade real de alguma solução no curto prazo. E os brasileiros continuam a viver cada dia sem saber ao certo o que virá amanhã.