• UM OLHAR SOBRE OS BRICS

    AGENDA – ANO 8 - NÚMERO 88 - 2017 - Outubro Antonio Fernando Guimarães Pinheiro - Advogado e Sócio Fundador

    A expressão “BRIC”, como se sabe, concebida por um executivo de um grande banco de investimentos, surgiu em 2001 para designar as economias emergentes representadas por Brasil, Rússia, Índia e China. A este grupo agregou-se a África do Sul, em 2011, passando a expressão a denominar-se BRICS.

    Os prognósticos naquela altura eram de que as economias emergentes cresceriam a taxas mais aceleradas do que as maiores economias do mundo, alterando significativamente o equilíbrio então vigente. Os Produtos Internos Brutos do BRIC, somados, equivaliam em 2001 a 8% da economia global.

    Hoje os PIBs dos cinco países representam, aproximadamente, 22% da economia global. A previsão mais otimista é a de que, por volta de 2035, o tamanho dos BRICS será maior do que todas as economias que atualmente constituem o G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido).

    Isso se deve, em grande parte, à avaliação de que a China, cuja economia já é maior do que as do Brasil, Rússia e Índia, somadas, continuará a crescer de maneira exponencial. Prevê-se ainda que, no conjunto dos BRICS, as economias chinesa e indiana liderarão o processo de criação de riquezas até o final da década.

    Quanto ao Brasil e a Rússia, países fortemente dependentes dos preços das commodities, os resultados não são tão animadores. Na última década, com a dramática redução do preço das commodities (petróleo, minérios, produtos agrícolas, etc.), essas economias tiveram um desempenho muito aquém daquilo que se antecipava no início dos anos 2000. A saída para ambas parece ser a de maior diversificação de sua produção para romper o ciclo da prevalência das commodities, amparada em financiamentos internos e externos para investimentos e desenvolvimento de novas tecnologias.

    A África do Sul é a economia mais desenvolvida do continente africano e, sozinha, responde por, aproximadamente, 25% do PIB continental. Conta com uma população da ordem de 50 milhões de habitantes e adotou o modelo de economia de mercado. Os seus principais setores econômicos são a indústria, mineração, turismo e finanças. Todavia, convive com grande desigualdade social, tendo uma população de minoria branca rica (9,6%), sendo a parcela restante composta de afrodescendentes (87,9%), indianos e asiáticos (2,5%).

    A China e a Índia, que tiveram maior sucesso em se inserir na cadeia produtiva globalizada, geraram nesse período maior volume de riqueza do que os demais BRICS. Como consequência, viram nascer uma classe média que cresce em proporções geométricas. Prevê-se que, em 2030, a classe média da China, que representava 16% da sua população em 2015, terá incorporado um contingente de mais 350 milhões de pessoas. No caso da Índia, que em 2015 tinha uma classe média correspondente a 8% de sua população, estima-se que esse extrato social será aumentado em mais 380 milhões em 2030.

    Enquanto isso, Brasil, Rússia e África do Sul, que não conseguiram criar as condições para o surgimento de uma classe média expressiva, ainda permanecem com grande parte de sua população em torno da linha da pobreza.

    Outro traço comum aos BRICS, que tem merecido a atenção dos analistas, é a constatação da existência de corrupção endêmica que se manifesta de variadas formas. A corrupção consome grande parte da riqueza produzida e contribui para a manutenção da população em condições de pobreza, retardando a implantação de programas governamentais capazes de aumentar a renda individual e proporcionar melhores condições de educação, saúde e infraestrutura.

    Alguns dos BRICS, a exemplo do Brasil, convivem hoje com importante processo de investigação e punição da corrupção, sinalizando para o mundo expectativa positiva de que, no futuro, poderá ocorrer substancial queda nos ilícitos praticados principalmente por políticos e agentes públicos. Da mesma forma, Índia e China têm desenvolvido esforços para a investigação e punição de atos de corrupção na esfera governamental.

    A despeito da situação de vanguarda em que se encontram hoje, prevê-se que essas duas nações deverão enfrentar no futuro próximo problemas gerados pelas mudanças sócio e econômicas que vêm ocorrendo, principalmente em razão do encarecimento do processo produtivo, determinado pelo crescimento dos níveis salariais pagos aos operários e, também, da utilização da automação industrial que poderá ensejar o corte de significativo volume de empregos.

    No caso brasileiro, a retração econômica ocorrida a partir de 2010 afetou profundamente a produção industrial e jogou 14 milhões de pessoas no desemprego, alimentando ainda mais a significativa massa de empregos informais que tem sido uma das marcas registradas da economia pátria. Ao lado disso, o crescente déficit nas contas públicas tem impedido investimentos em áreas estratégicas, especialmente a infraestrutura, capazes de acelerar geração de empregos. Assim, serão necessários alguns anos de estabilidade econômica até que o país retome as taxas de crescimento acelerado que antes prevaleciam.

    Por tudo isso, embora os prognósticos sejam hoje razoavelmente positivos, permanece a incerteza quanto ao futuro desempenho dos BRICS.