• VERGONHA DE SER BRASILEIRO

    AGENDA – ANO 7 - NÚMERO 83 - 2017 - Maio Antonio Fernando Guimarães Pinheiro - Advogado-sócio

    Segundo recente pesquisa do Instituto Datafolha a porcentagem de brasileiros que sentem mais vergonha que orgulho de serem cidadãos do país atingiu um recorde, representando 34% da amostragem nacional. Em 2010 essa porcentagem era de apenas 9%, o que significa um crescimento exponencial nos últimos 7 anos.

    Diversos fatores influenciam essa postura da população, mas, sem sombra de dúvida, os escândalos de corrupção que já há um bom tempo saltam diariamente aos olhos de toda a nação, e que provocam manifestações de perplexidade e repúdio em todo o mundo, contribuem decisivamente para essa reação negativa por parte dos brasileiros.

    O estudo divulgado em janeiro último pela Transparência Internacional aponta que o Brasil fechou o ano de 2016 em 79º lugar entre 176 países no ranking sobre a percepção de corrupção no mundo. Esse ranking leva em conta a percepção que a população tem sobre a corrupção entre servidores públicos e políticos, sendo que, quanto melhor um país está situado no ranking menor é a percepção da corrupção por seus cidadãos.

    Mais preocupante do que o resultado dessas pesquisas é o sentimento de descrença que afeta uma boa parte dos brasileiros, não apenas em relação ao comportamento da classe política e dos governantes como um todo, mas ao próprio padrão ético da nação.

    A banalização da corrupção a que a população assiste diariamente na mídia, atualmente cada vez mais evidente como resultado das investigações e julgamentos no âmbito da chamada Operação Lava Jato, causa espanto e enoja as pessoas que se pautam por padrões éticos sólidos, adquiridos ao longo das suas vidas, e corrói a crença de que vivemos numa sociedade pautada por valores morais que permitem o equilíbrio entre os anseios individuais e os interesses da sociedade.

    Uma sociedade não sobrevive e não se desenvolve sem uma consciência clara e o reconhecimento geral dos seus valores fundamentais, a exemplo da justiça, solidariedade, honestidade e bem-estar. E a corrupção fere de morte esses valores fundamentais, deixando um vazio que se transforma em descrença e vergonha. Por isso, não pode ser tolerada.

    É imprescindível que os brasileiros reajam a essa situação inaceitável, indo às ruas para expressar seu repúdio e exigir das autoridades competentes a punição exemplar de todos aqueles envolvidos em atos de corrupção, cobrando a ação pronta e decisiva do Judiciário para que os criminosos não fiquem impunes em face da prescrição de seus crimes.

    Da mesma forma, a sociedade precisa manter-se vigilante e cobrar dos governantes a transparência nos atos administrativos e a gestão correta e eficiente da coisa pública, com tolerância zero para a ineficiência e o descaso para com as áreas essenciais de serviços públicos, a exemplo da saúde, da educação, da segurança pública e da infraestrutura. Afinal, a sociedade é a detentora do poder de eleger seus governantes para que estes administrem a coisa pública, com eficiência e retidão, atuando sempre no interesse coletivo.

    Só com o resgate da moralidade e da ética na política e na administração pública terá o país condição de superar a descrença nas suas instituições e no seu próprio padrão de comportamento, criando, assim, as condições para que ressurja em todos o orgulho de ser brasileiro.